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  • Foto do escritorMarcelo Sant’ Ana Lemos

A FÉ DE DONA JUDITH MUDOU O NOME DE UMA PRAIA?

A baixada de Jacarepaguá é conhecida por ter um litoral com belas praias que começam na saída da Lagoa da Tijuca para o mar, tendo do lado esquerdo a praia de Joatinga e do lado direito o início da praia da Barra da Tijuca, passando pela Praia do Recreio dos Bandeirantes, Praia do Pontal, Prainha, Praia de Grumari e Praia Funda, conforme vemos no atlas escolar do Município do Rio de Janeiro de 2000.


Só que não é assim que os cariocas reconhecem hoje essa divisão das praias dessa região! Ao longo do tempo as praias sofreram mudanças de nomenclatura, como observamos comparando os mapas e documentos mais velhos, onde aparecem os nomes que foram heranças de povos originários, que lhes deram as denominações mais antigas, com os que temos hoje em dia, por influências de fatos recentes, que acabaram denominando trechos das praias, que não aparecem ainda nem nos mapas ou documentos oficiais atuais, mas estão consagrados no cotidiano e na imprensa.


Quando observamos o mapa feito por Manoel Vieira Leão, em 1767, que se encontra na Biblioteca Nacional, vemos apenas a denominação da praia de Curumarim (atual praia de Grumari), e os topônimos que nominam a ponta de “Sermbetiba” (atual Pontal) e a Barra da Tijuca (como canal de saída do complexo lagunar de Jacarepaguá e não como uma praia). Além do lugar denominado alto do Curupira (nome da entidade indígena, dos pés virados e cabelo de fogo, que protegia as matas).


Na “Carta Corographica da Capitania do Rio de Janeiro”, de 1777, feita por Francisco João Rosoio, aparece todo o litoral do Joá até o Pontal com o nome de Praia de Sernambetiba (que significa em tupi - ajuntamento de sernambis ou moluscos bivalves). A outra praia descrita seria a de Curumarim (que refere a um arbusto existente até hoje nas matas da Área de Proteção Ambiental de Grumari).


Nos documentos de arrendamentos de terrenos existentes nos arquivos do Mosteiro do São Bento, que era o proprietário da metade da Baixada de Jacarepaguá, mais precisamente uma área que englobava as terras do antigo engenho Camorim, toda a Vargem Grande, Vargem Pequena, Recreio dos Bandeirantes e Grumari, resgatamos, no final do século XVIII, algumas denominações de praias como: Prainha (local que ainda existe com essa denominação), Praia dos Galhetas (que não localizamos), Praia do Curupira (que ficava em frente ao Morro do Rangel, na saída do atual canal de Sernambetiba), que ficava próximo ao Alto do Curupira (uma elevação do atual Morro de Boa Vista) e Praia de Grumari (que nos documentos aparecem com várias grafias: Crumahim, Cormahi, Cromahi e Crumain). Interessante também que nestes documentos encontramos o caminho do arrastão, que seria um caminho que saia das margens do Rio Ipiabas (que hoje deságua no canal das Tachas), mas que naquele século tinha um braço que saia no mar, do lado esquerdo do Morro do Rangel (onde hoje fica o canal de Sernambetiba), onde praticavam o arrastão dos peixes com redes, demostrando que ali era um ótimo ponto para a atividade pesqueira.


No século XIX, um mapa da província do Rio de Janeiro de 1857, do acervo da Biblioteca Nacional, mostra a permanência da denominação de Praia de Sernambetiba para todo o litoral entre Joá e Pontal, e praia de Curumury, para atual Grumari, sem denominar outras praias nessa região.


Isso vai mudar no século passado, pois por conta da transformação dessa parte do litoral com os empreendimentos do Recreio dos Bandeirantes, na década de 1950, e o plano piloto da baixada de Jacarepaguá, conhecido como Plano Lucio Costa, de 1969, surgiram novas denominações de praias: Praia Grande, Praia Funda, Praia do Pontal, Praia do Recreio dos Bandeirantes e Praia de Jacarepaguá ou Marapendi, em lugar da Praia de Sernambetiba.


Com a implantação dos grandes empreendimentos imobiliários, aparece a denominação de Praia da Barra da Tijuca substituindo num primeiro momento a praia conhecida como de Jacarepaguá ou Marapendi ou Sernambetiba, dos séculos anteriores, sendo que sua porção inicial era apelidada de Barrinha e hoje praia dos Amores.


Já nos anos 80, vai surgir a praia do Pepê, por conta da instalação de um quiosque de sanduíches naturais de Pedro Paulo Guise Carneiro Lopes (Pepê), um dos melhores surfistas brasileiros da época, além de campeão de hipismo e de voo livre. Ele inaugurou o seu empreendimento em 1981, na Praia do Pepino e logo migrou para a Barra da Tijuca, cujo local se transformou num “point” tão famoso, que virou Praia do Pepê.


Também nessa década vai começar a aparecer, onde fica a Praia do Pontal, a Praia da Macumba, que vamos examinar mais adiante.


Em 1959, foi criada a Reserva Biológica de Jacarepaguá, que expressava a vitória dos preservacionistas da época em relação ao meio ambiente local. A Reserva compreendia a Lagoinha, o Canal das Tachas, todas as margens das Lagoas de Marapendi, Jacarepaguá, Camorim e Tijuca, além de 2,1 km de praia. Ela foi ratificada em 1965, por ocasião da criação do Estado da Guanabara, mas depois do Plano Lucio Costa, passou a sofrer contínuos retrocessos e perda de áreas para o avanço da especulação imobiliária.


Assim nasceu o nome de Praia da Reserva, que hoje faz parte do Parque Natural Municipal Barra da Tijuca Nelson Mandela, uma Unidade de Conservação (UC), criado em setembro de 2011. Um dos pontos mais conservados e de boa balneabilidade da Zona Oeste.


E a praia da Macumba? Porque ganhou esse nome?


Quem desvenda esse mistério é a Binha (Yrenemar Ibrahim), filha da Mãe de Santo Judith Ibraihm Morgado, que mora com ela, na comunidade de 8W, no Recreio. Foi ela que nos contou a história de sua mãe e deu as pistas para resolvermos esse enigma.


Conta ela que Judith, sua mãe, aos 16 anos, em 1945, já tinha feito o santo, na Umbanda, quando numa excursão conheceu a Praia do Pontal, e pediu aos Orixás que ajudasse ela a adquirir um terreno ali a beira da praia. Na época o local era muito pouco frequentado, pois era ainda área rural. Só na década de 1950, os terrenos da Gleba B, começaram a ser loteados, pelo pretenso proprietário, um americano de nome Joseph Weslley Finch, que na década de 1920, comprara do Banco de Crédito Móvel, que já estava falido desde de 1901, portanto não podendo fazer aquela venda legalmente (isso é outra história que falaremos em outro artigo).


Muitos anos depois, em 1973, ela começou a concretizar seu sonho de adolescente e comprou um terreno na 8W, situado ali na base do Morro do Rangel e foi pagando em prestações. Ela quitou em 1985, mas teve que enfrentar o “dito” dono do terreno, Sr. Leo Rumsen (na verdade um possível grileiro), morador em Copacabana, que na ocasião ainda tentou enganá-la, como fez com outra moradora da 8W, assinando a venda definitiva com uma falsa assinatura, para não ser reconhecida em cartório e depois se apropriar de novo do terreno, mas não conseguiu concretizar sua manobra e o terreno foi registrado em cartório, no nome da mãe da Binha.


Mãe de Santo Judith já tinha um centro espírita próprio desde de 1958, chamado “Tenda Espírita do Grupo Sinai irmã Ursula”, onde realizava seus trabalhos, em Nilópolis, na baixada fluminense. Agora com o seu sonho realizado ela se muda, em 1977, para rua 8W nº 189, para dar continuidade ao culto ali no Recreio, o primeiro de toda aquela região.


As pessoas então vinham de vários lugares para fazerem as consultas, pediam para mãe Judith jogar os búzios e participavam do culto aos Orixás, dançando ao som dos atabaques. O dono do Jornal Recreio, João de Oliveira, era um dos seus consulentes.


As oferendas eram ofertadas aos Orixás, através dos Exús, que levavam as súplicas das pessoas as divindades. Os trabalhos eram feitos na praia do Pontal, ou na Pedra de Itapuã (hoje conhecida como Pedra da Macumba). As pessoas vinham de diversos lugares para fazerem trabalhos com Mãe Judith. As oferendas variavam de acordo com as necessidades de cada consulente. Assim dependendo do trabalho eram oferecidos farinha, pipoca, galinha, charuto, rosas, etc.


Mãe de Santo Judith, na praia com a consulente Marleide, ofertando aos Orixás.

Outros Centros Espíritas vieram também fazer suas oferendas ali, a partir da década de 1990, e assim foi se consolidando o local como uma referência para os trabalhos das religiões de matriz africana. A Umbanda e o Candomblé sofreram e sofrem muitos preconceitos e perseguições até hoje, apesar da liberdade de culto estar valendo desde da Constituinte de 1946, quando Jorge Amado, escritor famoso e deputado federal do Partido Comunista Brasileiro (na época), redigiu a emenda 3218, que inseriu na Constituição daquele ano e vale até hoje, o parágrafo 7º do artigo 141, que instituía a liberdade de culto religioso.


O Centro de Mãe Judith funcionou no Recreio até 1989, mas contribui definitivamente para mudar o nome da Praia do Pontal, na parte em frente ao Morro do Rangel, para praia da Macumba, e a pedra de Itapuã em Pedra da Macumba.


Mãe Judith, hoje com 94 anos

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